quarta-feira, 20 de março de 2019

O menino que ainda não conheci

Num desses embaraços que a vida dá, dado momento pesquei por um instante, quando acordei... eu havia mordido a isca. Isso faz algum sentido?

Bem... na minha cabeça faz. 

A rotina desmotiva qualquer senso de ocupação mental. E quando não há ocupação mental, como é o meu caso, a rotina desmotiva um bocado de coisa, principalmente quando tudo esta virado ao avesso. Ou quando o mundo te conforta de que sua existência para ele é: 

Medíocre.

Como a minha é. Mas se de alguma forma, alguém busca consolo nas palavras duras de ser imprestável para o mundo... bom, pense melhor. Isso é um alivio, pelo menos... para mim. Nessas duras palavras que se manifestam o singelo prazer de esperar coisas espontâneas que a vida ocasiona. Um dia desses eu conheci o menino

...que ainda não conheci. 

Não é como se eu pudesse convidá-lo para tomar um café, porque eu acho que não gosta de café. E odeia conversar. Eu gosto de café, mas odeio as pessoas, então eu vou odiá-lo também. E mesmo que eu pudesse, não seria tão simples. Ia exigir muito esforço. Existe um paralelo entre essa fantasia que acabei de criar e a verdadeira trágica história por trás. Que não é trágica.

Só a distancia 

Entre a fantasia e a realidade, sim essa é a palavra mesmo... 


***

O menino que eu ainda não conheci, as vezes, parece ser mais maduro que eu. Mesmo que não seja. E talvez seja, com as ideias mais fixadas no lugar, quando se trata de uma mente demente igual a minha. Ou uma personalidade desproporcional para o tipo de pessoa que aparento ser. Mas não, talvez não seja. Eu ainda não o conheci para saber.

O menino que ainda não conheci, não estava nos meus sonhos, porque eu nunca havia idealizado ele. Na verdade, eu idealizei o contrário. Totalmente o contrário. Esse é o problema de criar padrões, a regra deles, é serem quebrados, e bom... é difícil existir exceções por aqui. O menino que ainda não conheci some várias vezes ao longo dos dias, mas eu não me importo muito, porque eu também gosto de desaparecer.

Talvez ele não saiba, mas eu realmente odeio ter o pensamento ocupado. E desde então, eu passei a odiar o menino que eu ainda não conheci. 

Eu odeio quase tudo nele. Do fio de cabelo, até o pé. Odeio nunca ter visto o rosto dele sem disfarces. Odeio os jogos que atrapalham as conversas sinceras, odeio o fato do orgulho dele ser maior que o meu. E odeio... ele ser parecido comigo, em algumas coisas. E totalmente o oposto, em maior parte de tudo. Odeio o estilo musical dele. Odeio a voz infantil. Odeio a grosseria estampada e visível. Odeio que tenha os cabelos pretos. Odeio a mimação que encara a viva. Odeio como pode ser tão frio com as coisas naturais da vida. Eu odeio muitas coisas no menino que eu ainda não conheci. 

E odeio não conhece-lo. 

Não precisa de muito esforço, nem disfarçar, uma vez que se encontra mais do que estampado e escancarado, no meu rosto e no prolongar dessa fantasia, o tamanho do apreço e carinho que eu sinto pelo menino que ainda não conheci. E a linha tênue que se estende entre essa prevalência de sentimentos ruins e bons.

O menino que ainda não conheci se estressa muito com minhas atitudes. As vezes nem sei o que fiz. E ele não me conhece o suficiente para saber que: pode sim confiar em mim, nas coisas que eu digo, mesmo que me falte muita atenção, maior parte do tempo. O menino que ainda não conheci é bem problemático, tem muita preguiça. Ele é desajeitado e desajustado. E desarrumado. Bom... estamos ocupando os mesmos papéis neste momento.

Mesmo distante o paralelo de linhas que se formam ao horizonte, a imagem distorcida que se forma na minha mente. Mesmo um abismo enorme no que se diz a respeito entre o que está realmente acontecendo, com o fato de: tudo isso pode ser uma ilusão... não tem como negar...


***

É como se a vida te desse um presente duvidoso, ao mesmo tempo muito tentador. Como se entregasse nas suas mãos algo para ser vivido agora e ao mesmo não se viver nada, com o sabor amargo de dúvida do amanhã e a certeza quase morta de hoje. Onde um contato pode se esvair pelo tempo, igual poeira no espaço... ou ser fortalecido, por só se acreditar... mesmo sendo tão difícil de se manter a fantasia e a realidade lado a lado. 

O menino que ainda não conheci me da um misto de incertezas, um poço de inseguranças. O menino que ainda não conheci me revela meu medo do passado... revela o medo dele. O menino que ainda não conheci me da a certeza de que tudo isso é besteira. Essa é uma das qualidades dele.

*** 

O menino que ainda não conheci gosta de vestir um capuz que não condiz com quem ele é. Preso em mentiras e vaidades. O menino que ainda não conheci me tomou toda a esperança de te-lo conhecido. E isso me fez sangrar o suficiente. Mas... uma vez, o menino que ainda não conheci falou que nada acontece por acaso. O menino que ainda não conheci fez eu olhar para dentro de mim.

Eu não posso ajudar a mim mesmo, não sob essas condições. Condições que eu mesma me estabeleci. E quando o sol bate todas as manhãs na minha janela, sei que é outro dia que pode dar certo. Sentada na beirada da cama, olhando um feixe de luz branca. Quando o sol bate todos os dias na minha janela, eu tenho tido mais vontade de levantar e assumir a culpa, por todos os estragos que fiz.

O menino que ainda não conheci, é só um passado borrado. De milhares de escolhas erradas que fiz ao longo do tempo. O menino que ainda não conheci, é um amontoado de complexos mal resolvidos. O menino que ainda não conheci, esta com seu nome riscado na minha lista e com algumas observações, de como manter distancia.

Mas toda vez que o sol bate pela manhã...

O menino que ainda não conheci , ensinou-me (sem ensinar) que não é hora de levantar suas armas. Que se pode escolher ser certo várias vezes, mesmo que seja muito doloroso onde essas escolhas possam nos levar, mesmo que escolhas nos afastem daquilo que mais gostamos. Estou tomando uma xícara de café sozinha, com o sol batendo na minha janela. E assim posso agradecer, pela liberdade que o menino que ainda não conheci me deixou...

***

Não posso dizer a data que esse texto foi escrito. Pois escrevi ele em vários dias, porque eu queria que fosse perfeito. E queria ter dado o final perfeito. Nem sei por qual motivo eu tirei um tempo pra rever esse texto, ou tentar terminá-lo. Quando deveria ser outro texto trancado no fundo da gaveta, sem precisar dar vida ou cor a ele. Nem sei de onde tirei coragem para escrever, ou terminar. 
Mas o recado final é, não importa o que fizeram para você. Ou a sequencia de coisas que foram dando errado. Ou até mesmo a nossa própria culpa que adoramos esconder de nós mesmos. 
Minhas mãos estão sujas, mas não só as minhas. E tudo é irreparável. 
Mas alguns momentos de silêncio, para por a mão na consciência. 
Não vamos deixar nossa melhor versão morrer. E isso foi o que aprendi do menino que ainda não conheci. 


Até a hora da minha morte

Não me sobraram dias quentes, mas uma melancolia ardente de tudo o que sobrou. Vejo um deserto frio, este que minha mente ansiou, e, a cada ...