quarta-feira, 19 de junho de 2024

Lá por fora

Expectativas e passos frustrados, lado a lado...

No fim do dia... sonhos são pedaços tão abaláveis de nós mesmos. 


O amor está tão fora de moda, 

e isso tem se tornado a minha ruína. 


Trevas e calabouços, nada disso é real. 

Estou rodeada por campos de flores e me sinto triste. 


Eu abro a porta para os meus demônios saírem, 

mas eles sempre querem  fazer as pazes. 


Esse é um caminho que me faz sentir vivo. 

...entre o que está por vir e só viver. 


Droga, eu estou tão fora de moda.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Escorpião

(es·cor·pi·ão)
substantivo masculino
Origem etimológica:latim scorpio, -onis.

Esse é um texto com 7 capítulos, por vários motivos esse número foi escolhido. Iniciei esse texto no dia 20 de abril de 2024 às 21:17. Cartas ao sol foi escrito em 22 de abril de 2021.

I. A sinceridade do vazio.

Algumas vezes nada precisa ser dito para um começo ou um final. Algumas vezes o amor é inocente nos jogos do ego, e a memória pode facilmente ser traída. E no silêncio de palavras não ditas, deitamos nossos corpos sobre a verdade de quem somos. 

Nos deparamos com um vazio. E fragilmente tentamos separar a dualidade de nossos sentimentos para refazer o passado. E mesmo assim, é possível inconscientemente encontrar um tipo de sinceridade interior. Sobre o que esse vazio pode dizer a respeito de nós mesmos. 

E na saudade de nós mesmos, o vazio implica em atitudes cruéis. Veladas por atos secretos e afoitos, uma tentativa fútil de mudar a realidade por meras distrações. Distrações essas que podem mascarar a verdade em desejos reprimidos, falsas esperanças e um sentimento depreciativo. 

Na sinceridade do vazio, encontra-se um limbo de repetições. Um loop de hábitos criados para exaustivamente nos enganar desse buraco. Que nunca engana, apenas camufla e infla várias camadas de nossas personalidades. 

Até que se cria uma caminho sem volta. Uma dor tão segura sobre quem se ser, um comodismo tão fácil e tangível. Passa a ser difícil resistir, mesmo que essas escolhas possam ser tão cruéis. Mas o vazio criava até forma humana para somente dizer que o mundo também era cruel, e nunca haveria momentos - de fato - acolhedores. 

E mesmo após dias bons, no fim da noite... Quando devíamos nos recolher, ouve-se o vazio sussurrar...  e outra vez se arruinava. A solidão que se formava, não poderia se formar. Mas formou, e ainda solidificou todos esses pensamentos incessantes para perpetuar a melhor mentira bem contada.

Aquela que você acreditaria. 

Mas acreditaria tão forte, a ponto de se tornar um escárnio. E todas as vezes que o vazio chamasse, não ouviria nunca mais a voz da consciência, pois já estaria mergulhado em águas profundas, para que não tivesse que ouvir a sinceridade do vazio, e para sempre pudesse se sentir feliz. 

Uma felicidade frígida. 

Facilmente substituída por qualquer outra distração. E quando tudo ficasse silencioso demais, poderia desabar e desabafar sobre tudo. Sem o limite das palavras, pois não conhece o peso delas. Nem como as usar. E seria muito mais fácil fugir, do que lidar com coisas sinceras.


II. O lamento do coração. 

Poderia um anjo cair e ruir, mas continuar a ser bom? Poderia um anjo abraçar sua escuridão e encontrar um caminho entre a destruição e a paz? Um coração atormentado, preso em sonhos intermináveis...poderia encontrar perdão?

Poderia um dia se perdoar?

O lamento de um coração não é sobre uma tristeza que não passa. É uma sensação que arrebata todas as outras. E quando se escuta falar sobre... já se está muito distante para perceber. É um barulho sem som, uma dor que não dói. Uma escuridão que não assusta. 

Não chamaria de vazio... Mas chamaria de cheio. A sinceridade do vazio - as vezes - reconforta. O lamento do coração não. É um querer sentir tão frágil, tão escasso. Tão preguiçoso. Um pensamento obstinado e obsessivo... intruso. Não tem nada a ver com a morte. Mas com querer viver. Não tem nada a ver com ser capaz. Mas com ser qualquer coisa. 

É um professor exigente. 

Um lamento tão profundo. Uma vergonha tão arrebatadora. E imperceptível. O lamento de um coração não entra em conflito. Qual o preço a ser pago para se purificar... ou amor é somente para os fortes. 

Eu poderia desistir e continuar a ser bom? 

Ou seria outro pecado indelével? 

III. O Aprisionamento da alma. 

(...)

IV. Dualidade e semelhanças. 

E quando se encontraram. Deram tão certo como o céu e a terra. Como o dia e a noite. Um amontado de mistérios que logo seriam resolvidos - pela singela existência um do outro. O destino seria tão perfeito, ou um feito amaldiçoador. 

Teria sido tudo coincidência, ou apenas um teatro. Seria uma cópia do original ou uma vontade reprimida de reproduzir o outro. Estaria tão perplexo pela outra existência, a ponto de deseja-la incompreendidamente. 

E o tempo passaria a reproduzir as respostas que nunca haviam sido feitas no passado?

O Amor não seria imprudente. Mas seria insuficiente para salvar qualquer laço. E somente a morte traria o perdão que tanto foi ansiado... Até que perdesse todo o sentido. 

Eu não quero mais, repetiria.

E assim o seria. 

V. Redenção dos espíritos menores. 

O amor cura e se deixará ser curada?

Os via correr pelo mar, sorrisos e todos os tipos de brincadeiras. Não os invejou, mas desejou ser como eles de novo. O dia parecia não ter fim e seu pensamento ressignificava outras memórias, e no horizonte já se via distante. Mas não com saudade, não com apreensão. Ja havia perdido todas as chances, não precisava mais tentar. 

Será que um dia será digna? 

Talvez não tenha essa resposta. 

Hoje, distante. Experimentando um tipo de solidão tranquila, a solidão de ser só sua. Quis encontrar a mesma sintonia. Já faz alguns anos... que queria uma chance. 

Poderia um anjo guiar um coração atormentado? Para a sua redenção? Queria encontrar alguém tão parecido com seu coração, que não tenha medo da verdade. Que não desista... 


VI. Mentiras vaidosas. 

As escolhas feitas de mãos vazias, agora estão cheias de culpa. 

Não conhecemos o coração dos outros... não podemos criar conclusões sobre a dor de ser cada um. Mesmo que algumas situações pareçam óbvias, mentiras envenenam a certeza.

O lamento de um coração não entra em conflito com a sinceridade do vazio. A verdade liberta. A mentira cria dualidades e caminhos que não se pode percorrer...

Não sem a certeza. 

Mas a incerteza chega, e quando vens. Vens para destruir, dilacerar qualquer sentimento. O abismo grita, o vazio se afasta. Está cheio novamente... e precisa esvaziar. Precisa de qualquer motivo para se agarrar a realidade, antes que por um fio... tudo se vá.

E é tão fácil se deixar ir.

Como se o mundo não mais importasse. Nada de diferente poderia ser feito. E ao mesmo tempo pode ser feito de tudo. Porque uma vez o vazio sussurrou... nas noites em que não conseguia dormir, e tinhas a mente atormentada. 

O perdão não pode ser vazio. Precisa ser sempre completo, não pode existir brechas. Tem de ocorrer em um todo, para que em sua totalidade supere a decepção. Algumas vezes nada precisa ser dito, não precisa de bons motivos para se abandonar boas memórias, se essas já estão envenenadas. 

Não se pode criar certezas cruéis sobre os outros. E jamais me atreveria a escrever - não de novo - sobre o coração de outra pessoa.

VII. Partidas.

Nunca é muito tarde para se dar uma nova chance. Não é necessário alarde, ou qualquer brutalidade do sentimento. Não é mais preciso se pensar demais, ou adivinhar todos os motivos. 

A natureza do escorpião é essa. E ninguém pode mudá-la. 


Para Cássia. Essa e várias outras.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Assim como

Quando canções parecem sentimentos antigos.

Eu entendo...

não podemos forçar nostalgias internas.

Mesmo que seja familiar demais. 


Eu lembro como era olhar o mar pela primeira vez,

assim como a felicidade.

Algumas vezes vai se perdendo...

para que não perca o seu significado. 


Notícias ruins estão por todas as partes. 

Mas eu queria abrir um pouco meu coração

E me dar uma chance

De eu mesmo me perdoar. 


Um poço inesgotável de cansaço

Tentativas remediadas

Assim como a felicidade 

Eu queria que o amor não se perdesse. 


Mesmo que situações amarguem meus mares

Eu queria ser um repouso 


Não um lago negro, 

movido por decepções. 


Eu queria um momento. 

Assim como o amor

deixar marcas que não se perdem.

sábado, 4 de novembro de 2023

Quarto escuro

Eu poderia entregar meu coração, 

mas é só um pedaço de carne descartável. 

Minha alma não está límpida, 

todo meu espirito está acabado. 


Fantasias bobas. 

Preso em sonhos intermináveis.

Com medo do amanhã, 

ausente de tudo. 


A liberdade é a ilusão em que eu preciso me ludibriar. 

Minha mente é um quarto escuro. 

E não preciso me libertar...


Eu não preciso alimentar mais mentiras. 


Descalça. Despida. 

E mais uma vez sozinha no meio de olhos atormentados. 


Descalça... exposta mais uma vez nesse frio. 

E quando minhas mãos o tocam, 

eu sei que preciso deixar vaguear... 

andando distante,

de qualquer incerteza que me cerque. 


Descalça... 

Dizer a verdade vai deixa-los mais preparados? 

Ou apenas afugentados de suas próprias conclusões?


Nesse quarto escuro, 

eu vejo sorrisos... que me dizem o que fazer. 

Eles só querem o meu bem.

Nesse quarto escuro

todos querem o meu bem...

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Mãos livres.

Coloque as mãos sobre…

Hoje vou te mostrar um pouco do azul. 

Coloque as mãos por dentro. 

Fecharemos os olhos em segredo, e eu vou te apresentar apenas o raso.


Estamos mergulhando em tolices. Enquanto seguro a respiração, consigo sentir suas vibrações. 

Você anseia por algo a mais? 


Seus dedos são uma mentira bem contada. Podemos fingir até o amanhecer, e tudo o que eu mais queria... era ouvir seu coração desabar. 


Não sou de muitas palavras. 

Mas podemos combinar alguns códigos, para que eu os repita suavemente. 


Coloque as mão sobre, 

eu vou dizer mais uma vez para você - se isso te levar a ficar mais sério.


 Pensamento graves rodeiam nossos corpos. 

Duplo sentido, e só Deus sabe o que isso possa significar. 


Enquanto o tempo ocupar nossos espaços. 


E tudo que poderíamos nos permitir, é nos separar. 

Para que possamos ter as mãos livres.

Olhos fixos no vazio, sem o constrangimento das palavras ditas erradas. 


Coloque as mãos sobre… Talvez eu não diga nada. 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Cartas ao sol

 Preciso confidenciar meus segredos, numa tonalidade que apenas, e só você... poderia ouvi-los. 


Eu andei pensando faz muito tempo, sobre assuntos que não remetiam a mim. Mas, talvez, fosse minha obrigação dize-los. Mas você sabe, eu não digo as coisas... apenas deixo que elas aconteçam. 

E esse foi meu maior erro.

Questionei por muito tempo suas dúvidas de como eu tive facilidade e frieza em atirar-me na solidão, na inconsistência e abandonar tudo que eu jurei manter por perto. Nesses momentos eu dizia a mim: Reescreva, reescreva, reescreva. Quase como uma religião. Depois de perceber o quão somos medíocres, eu pude lidar com a minha maior covardia. Mas isso... faz tanto tempo, você só percebeu pouco após, o que eu realmente guardava dentro de mim. 

Eu fui tão egoísta que realmente acreditei que você precisava ser "salva", mas quis que com seus próprios olhos você lidasse com seus problemas. Algumas pessoas só querem cometer suas maldades, sem que ninguém lhes diga nada, certo? No fundo eu era só mais uma pessoa fraca, com medo de falar sobre o elefante na sala. 

Não é só o mentiroso que queima a língua. 

Mas não estou aqui para dizer o quanto somos desprezíveis com quem esteve conosco. Ou o tanto de mentira que acumulamos no decorrer de nossas vidas. Eu realmente não penso que tenho de ser boa, não mais. Você muito menos se preocupa com isso, apenas com suas vaidades.



Então agora, vou te confidenciar as cartas ao sol.



Eu sempre experimentei a dor de ser uma pessoa fraca. E como eu lutei para que não fosse verdade. Manipulei minha realidade em uma fantasia boba. Mas havia uma confidente... havia alguém ali, para quem eu poderia contar todas as minhas fraquezas. Eu tinha forças para lidar comigo mesma, eu tinha alguém para sonhar essas fantasias bobas. Eu tinha uma confidente... isso me fazia tão bem. Minha confidente, em um mundo onde os prazeres são tão artificiais, quando pessoas são tão entediantes. Fazíamos o caos ser tão confortante. A bagunça ser tão acolhedora. Tudo estava tão fora do controle e ocasionava de ser mais divertido. 

Mas fantasias no fim do dia são só
fantasias.

Minha confidente, eu quis ser tanto igual a você. Eu queria ser forte, eu queria levar a vida com a mesma leveza que você. Você me acolhia e me entendia como ninguém nunca havia feito por mim. E não havia tristeza se você estivesse por perto, porque você transformava tudo em bons momentos, você fazia até festa no seu próprio sofrimento. A sua inconsequência com o mundo me enlouquecia... eu também queria ser assim. 

Você me salvou

Mas o mundo nos envelhece, enquanto ele permanece o mesmo. Eu odiava ver você triste, odiava ver seu sofrimento. Você não merecia o que as pessoas fizeram com você. Eu te protegi, eu briguei por você, eu te defendi. O mundo não merecia você. Fiz uma promessa que um dia, eu te livraria de tudo isso, iríamos juntas até o fim. 

Fantasias no fim do dia são só
fantasias.

Alimenta fantasia. Oh céus... alimentamos tantas fantasias. Que a realidade se tornou difícil demais para suportar. Caminhamos por lugares tão diferentes, absorvemos tantas coisas. E no fim, eu não pude me tornar uma pessoa forte. Nem por você, nem por mim. O mundo começou destruir nossas fantasias, o mundo começou a se tornar sombrio demais. Mas você ainda estava comigo, e só isso importava. A nossa reciprocidade era o que nos fazia firmes. Eu continuei com a minha promessa, quando tudo mudasse. Eu te salvaria de tudo, o mundo não merecia você. Eu queria te dar um lugar acolhedor, longe da dor de ser quem você é. Seu coração não merecia nada do que os homens bons tramaram. Você não merecia a insegurança das pessoas, os demônios familiares, a traição dos próximos... você era a melhor pessoa que eu conhecia. 

Fantasias no fim do dia são só
fantasias.

Mas a vida enraizou as dívidas que fizemos por não vivermos na realidade, os demônios corromperam o melhor de nós. Vaidades e fantasias. Tudo foi ao pó. Você não era mais quem eu conhecia. O mundo já havia consumido o melhor de você. E eu não vi você mudar, porque dentro de mim eu continuava sendo uma pessoa fraca... enquanto você sofria, eu sofria por ser quem eu sou. Dividimos por tanto tempo a mesma fantasia, que  não percebemos - já havíamos criado sonhos diferentes. 

Hoje então deixo esta carta ao sol, para que ilumine seus dias até o fim, te dê forças para que seja feliz e encontre seu próprio caminho. Pois vou partir, eu prometi a mim mesma, que as memórias boas sempre irão habitar meu paraíso sombrio, enquanto eu me distancio, assim posso manter minha promessa de caminhar com você até o fim, nas minhas melhores lembranças. 

A solidão é o que faz de mim o que sou agora, e hoje posso dizer que sou forte, depois de perder todos a quem eu já amei.

É uma pena, realmente é uma pena minha confidente. Tudo começou com uma carta. E acabou com outra. Mas, é nessa fantasia, que lhe pergunto, foi você ou eu quem escreveu as cartas ao sol? Cartas ao sol é sobre meu ponto de vista, ou sobre o seu?

Não há pessoas erradas. Isso é apenas outra fantasia.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Somos vítimas de nós mesmos

Em mundos infames e delírios complacentes, nossas escolhas cavam nossos túmulos.
Mas eram boas? 
As intenções?
 As nossas intenções eram boas? 
Podemos falar que fizemos tudo por amor? 


Será que eu poderia ser perdoado?

Sou apenas uma vítima de jogos entediantes 
Apenas uma peça descartável num prelúdio incessante de acasos. 



Convidar-te-ia para passear nesse lago negro, mas infelizmente todos os ingressos foram vendidos... eu demorei demais para decidir-me. Sou minha própria vítima pessoal, da mesma solidão que me visitou e estacou uma faca como morada dentro de mim, apenas para nunca deixar-me esquecer: 

Esse lago negro, é tudo o que eu sou agora. 

Não há saídas
Nem mensagens impactantes
Eu apenas perpetuei um paraíso sombrio 
que para sempre habitará em mim
Perto de boas memórias 
para manter intacto
tudo que eu já fui um dia.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Sóbria dor

Nas escusas dos problemas, 
liquefaz a solidez 
dos dias sórdidos 
que algum dia 
trouxeram 
qualquer coisa. 

Um amor romântico
polarizado 
pela surdez do sentimento. 
Estou me afogando
na minha própria iluminação.

Soem os falsos alarmes, 
eu cheguei...
para nada.

Estou sóbrio da minha própria dor, 
mergulhado num psiquismo.
Minha libertação
é o inferno
e meu pesar
é o paraíso.

Estou incrédulo em reconhecer
porque está a doer.

quarta-feira, 20 de março de 2019

O menino que ainda não conheci

Num desses embaraços que a vida dá, dado momento pesquei por um instante, quando acordei... eu havia mordido a isca. Isso faz algum sentido?

Bem... na minha cabeça faz. 

A rotina desmotiva qualquer senso de ocupação mental. E quando não há ocupação mental, como é o meu caso, a rotina desmotiva um bocado de coisa, principalmente quando tudo esta virado ao avesso. Ou quando o mundo te conforta de que sua existência para ele é: 

Medíocre.

Como a minha é. Mas se de alguma forma, alguém busca consolo nas palavras duras de ser imprestável para o mundo... bom, pense melhor. Isso é um alivio, pelo menos... para mim. Nessas duras palavras que se manifestam o singelo prazer de esperar coisas espontâneas que a vida ocasiona. Um dia desses eu conheci o menino

...que ainda não conheci. 

Não é como se eu pudesse convidá-lo para tomar um café, porque eu acho que não gosta de café. E odeia conversar. Eu gosto de café, mas odeio as pessoas, então eu vou odiá-lo também. E mesmo que eu pudesse, não seria tão simples. Ia exigir muito esforço. Existe um paralelo entre essa fantasia que acabei de criar e a verdadeira trágica história por trás. Que não é trágica.

Só a distancia 

Entre a fantasia e a realidade, sim essa é a palavra mesmo... 


***

O menino que eu ainda não conheci, as vezes, parece ser mais maduro que eu. Mesmo que não seja. E talvez seja, com as ideias mais fixadas no lugar, quando se trata de uma mente demente igual a minha. Ou uma personalidade desproporcional para o tipo de pessoa que aparento ser. Mas não, talvez não seja. Eu ainda não o conheci para saber.

O menino que ainda não conheci, não estava nos meus sonhos, porque eu nunca havia idealizado ele. Na verdade, eu idealizei o contrário. Totalmente o contrário. Esse é o problema de criar padrões, a regra deles, é serem quebrados, e bom... é difícil existir exceções por aqui. O menino que ainda não conheci some várias vezes ao longo dos dias, mas eu não me importo muito, porque eu também gosto de desaparecer.

Talvez ele não saiba, mas eu realmente odeio ter o pensamento ocupado. E desde então, eu passei a odiar o menino que eu ainda não conheci. 

Eu odeio quase tudo nele. Do fio de cabelo, até o pé. Odeio nunca ter visto o rosto dele sem disfarces. Odeio os jogos que atrapalham as conversas sinceras, odeio o fato do orgulho dele ser maior que o meu. E odeio... ele ser parecido comigo, em algumas coisas. E totalmente o oposto, em maior parte de tudo. Odeio o estilo musical dele. Odeio a voz infantil. Odeio a grosseria estampada e visível. Odeio que tenha os cabelos pretos. Odeio a mimação que encara a viva. Odeio como pode ser tão frio com as coisas naturais da vida. Eu odeio muitas coisas no menino que eu ainda não conheci. 

E odeio não conhece-lo. 

Não precisa de muito esforço, nem disfarçar, uma vez que se encontra mais do que estampado e escancarado, no meu rosto e no prolongar dessa fantasia, o tamanho do apreço e carinho que eu sinto pelo menino que ainda não conheci. E a linha tênue que se estende entre essa prevalência de sentimentos ruins e bons.

O menino que ainda não conheci se estressa muito com minhas atitudes. As vezes nem sei o que fiz. E ele não me conhece o suficiente para saber que: pode sim confiar em mim, nas coisas que eu digo, mesmo que me falte muita atenção, maior parte do tempo. O menino que ainda não conheci é bem problemático, tem muita preguiça. Ele é desajeitado e desajustado. E desarrumado. Bom... estamos ocupando os mesmos papéis neste momento.

Mesmo distante o paralelo de linhas que se formam ao horizonte, a imagem distorcida que se forma na minha mente. Mesmo um abismo enorme no que se diz a respeito entre o que está realmente acontecendo, com o fato de: tudo isso pode ser uma ilusão... não tem como negar...


***

É como se a vida te desse um presente duvidoso, ao mesmo tempo muito tentador. Como se entregasse nas suas mãos algo para ser vivido agora e ao mesmo não se viver nada, com o sabor amargo de dúvida do amanhã e a certeza quase morta de hoje. Onde um contato pode se esvair pelo tempo, igual poeira no espaço... ou ser fortalecido, por só se acreditar... mesmo sendo tão difícil de se manter a fantasia e a realidade lado a lado. 

O menino que ainda não conheci me da um misto de incertezas, um poço de inseguranças. O menino que ainda não conheci me revela meu medo do passado... revela o medo dele. O menino que ainda não conheci me da a certeza de que tudo isso é besteira. Essa é uma das qualidades dele.

*** 

O menino que ainda não conheci gosta de vestir um capuz que não condiz com quem ele é. Preso em mentiras e vaidades. O menino que ainda não conheci me tomou toda a esperança de te-lo conhecido. E isso me fez sangrar o suficiente. Mas... uma vez, o menino que ainda não conheci falou que nada acontece por acaso. O menino que ainda não conheci fez eu olhar para dentro de mim.

Eu não posso ajudar a mim mesmo, não sob essas condições. Condições que eu mesma me estabeleci. E quando o sol bate todas as manhãs na minha janela, sei que é outro dia que pode dar certo. Sentada na beirada da cama, olhando um feixe de luz branca. Quando o sol bate todos os dias na minha janela, eu tenho tido mais vontade de levantar e assumir a culpa, por todos os estragos que fiz.

O menino que ainda não conheci, é só um passado borrado. De milhares de escolhas erradas que fiz ao longo do tempo. O menino que ainda não conheci, é um amontoado de complexos mal resolvidos. O menino que ainda não conheci, esta com seu nome riscado na minha lista e com algumas observações, de como manter distancia.

Mas toda vez que o sol bate pela manhã...

O menino que ainda não conheci , ensinou-me (sem ensinar) que não é hora de levantar suas armas. Que se pode escolher ser certo várias vezes, mesmo que seja muito doloroso onde essas escolhas possam nos levar, mesmo que escolhas nos afastem daquilo que mais gostamos. Estou tomando uma xícara de café sozinha, com o sol batendo na minha janela. E assim posso agradecer, pela liberdade que o menino que ainda não conheci me deixou...

***

Não posso dizer a data que esse texto foi escrito. Pois escrevi ele em vários dias, porque eu queria que fosse perfeito. E queria ter dado o final perfeito. Nem sei por qual motivo eu tirei um tempo pra rever esse texto, ou tentar terminá-lo. Quando deveria ser outro texto trancado no fundo da gaveta, sem precisar dar vida ou cor a ele. Nem sei de onde tirei coragem para escrever, ou terminar. 
Mas o recado final é, não importa o que fizeram para você. Ou a sequencia de coisas que foram dando errado. Ou até mesmo a nossa própria culpa que adoramos esconder de nós mesmos. 
Minhas mãos estão sujas, mas não só as minhas. E tudo é irreparável. 
Mas alguns momentos de silêncio, para por a mão na consciência. 
Não vamos deixar nossa melhor versão morrer. E isso foi o que aprendi do menino que ainda não conheci. 


Até a hora da minha morte

Não me sobraram dias quentes, mas uma melancolia ardente de tudo o que sobrou. Vejo um deserto frio, este que minha mente ansiou, e, a cada ...